Em 2010 entrevistei Vanete Almeida. Até então eu não a conhecia. Dai que nosso encontro foi na sede da FETAPE - Federação dos Trabalhadores na Agricultura em Pernambuco. Tinha então inúmeras revistas e livros falando sobre ela. Um deles ela autografou para mim, "Ser mulher num mundo de homens", nesse livro Cornélia Parisius escreve a biografia de Vanete Almeida. Creio que 10 por cento dos serra-talhadenses tenham lido essa obra.
Vanete Almeida a exemplo de uma de uma Simone de Beauvoir, de uma Frida kahlo, de uma Pagu promoveu uma revolução feminina silenciosa, diferente dos exemplos citados. Tudo começou em 1980 quando Vanete foi contratada para assumir a coordenação do sindicato dos trabalhadores rurais do estado de Pernambuco, a FETAPE - Federação dos Trabalhadores na Agricultura em Pernambuco. Ela disse que nessa época as trabalhadoras rurais não tinham o direito de participar das reuniões nos sindicatos junto com os homens.
Então paralelo ao seu trabalho com os homens ligados ao
sindicato ela ela reunia-se com as esposas na intenção de organizar um
movimento feminino para que elas também tvessem o direito de participar das
reuniões dos sindicatos e até se filiar a eles uma vez que muitas delas também,
trabalhavam no campo.
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Nas primeiras reuniões, lembra Vanete, as esposas
não falavam, mas no decurso do tempo criaram confiança, o movimento cresceu. Na
década de 90 foram eleitas às primeiras diretoras de Sindicatos de
Trabalhadores Rurais e ainda, em torno dos anos 90, se construiu a comissão
municipal de Mulheres Trabalhadoras Rurais em Serra Talhada. Esse movimento
chegou até o Sertão central - que abrange de Custódia a Terra Nova - e
atualmente se consolida numa rede de mulheres rurais que abrange a
América Central e o Caribe, contando atualmente com 15 grupos de mulheres na
base.
È um avanço considerável para
quem antes nem participava como associadas hoje elas estão na condição de
liderança.
Considero
Vanete uma mulher a frente do seu tempo. Com incrível confiança em si própria, Vanete
invade silenciosa, um território eminentemente masculino e planta ali, os
marcos da emancipação feminina da mulher no campo. Vanete é uma mulher
extremamente humana, pois não foi preciso brigar com o homem para dá espaço a
mulher. Com sua inteligência ela conseguiu o apoio deles também. Incansável em
seu trabalho, empreendedora, seu conhecimento transforma-se em luta não só a
favor da mulher, mas em favor do ser humano.
Em 2005 ela foi indicada ao Nobel da Paz
Esse é o livro que conta a história da vida de Vanete Almeida.
A sua história deverá despertar
estudos científicos nas academias universitárias mais tarde. Deverá ser assunto
e estudos de profundidade em propostas de temas para monografias e teses de
doutorado. Na atualidade temos a compreensão e o respeito ao seu caráter de
vanguarda, a sua dimensão intelectual e, sobretudo ao seu exemplo imorredouro,
a ser seguido.
Partes da entrevista publicada no Jornal da CDL de Serra Talhada -
Helena
Conserva - Vanete fale
um pouco desse movimento que você criou
Vanete Almeida – Então Helena, um movimento que começou tímido, nas primeiras reuniões
elas não falavam e ainda traziam nos seus nomes a dominação dos maridos ou
pais. Assim se chamavam Leonor de Zé Madeiro, Inêz de Liro, Júlia de Zé
Marques, Alzira de João Tico, Dora de Antonio Novo, Adalgisa de Espedito
Torres, Maria de Osmá, Zuza de Antonio Maceno, Luzinete de Zé Alejado, Nenzinha
de Alcido e Ana de Zé Nequinho.
H.C. - Essa coisa de agregar ao nosso nome ao do marido é uma maneira de identificar as
pessoas porque os nomes se repetem (risos).
V.A.
- Sim, é verdade Helena faz parte da cultura sertaneja, mas por trás dessa
identificação há uma satisfação psicológica para a mulher em saber que, tem um
dono, que pertence a um homem e muitas vezes a mulher sabiamente usa para que,
seu homem se sinta potente. Então para conquistar o nosso valor temos que
primeiro aprender que não temos donos, temos um companheiro, um parceiro e não
precisamos nos incomodar em querer fazer com que ele se sinta potente.
H.C. – Então o seu trabalho tem um duplo sentido, um é libertar a mulher do
vinculo masculino e o outro é trazê-la para a frente de batalha, não é? Como
você faz esse trabalho?
V.A. – É um trabalho de conscientização acima de tudo. Elas acham que o corpo delas pertencem ao homem, então eu reforço isso
fazendo com que elas repitam em voz alta “meu corpo pertence ao meu homem. Depois
que elas se apropriam dessa realidade eu desconstruo: meu corpo é MEU. Em
seguida criamos um slogam para uma campanha assim: “nem do homem, nem da
igreja, o meu corpo é meu”. Mas isso é um trabalho de anos”.
H.C. – Como você chega até elas com essas ações? Quero dizer, voce recebe
orientação de alguma instituição de como deve conduzir o trabalho?
V.A. – Não Helena. Nas reuniões eu
sinto a necessidade de trabalhar uma determinada questão. Tenho a intuição de
como devo trabalhar. Então, com uma equipe de trabalho organizamos um
seminário, ou uma oficina, ou um grupo de discusão, ou palestras
com metodologias direcionada. É assim que funciona.
H.C. – E o homem
onde fica?
V.A. – Eles são convocados a ajudar e não se negam. Participam de alguns
trabalhos, outros não. O homem é parceiro e não é empecilho ou adversário.
H.C. – Você é um orgulho para
nós, serra-talhadenses, Vanete.
indicada ao Nobel da Paz em 2005
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