5.3.11

ENTREVISTA - Benona


Benona: testemunha da história

 Achei oportuna publicar essa entrevista que fiz com Benona na sua residência em maio de 2010. Ela é uma personagem lendária, testemunha de parte história. A entrevista foi para escrever a minha monografia de final de curso de pós-graduação na FAFOPST sobre mulheres que deixaram marcas.
Cada vida é um livro aberto, rico de experiências e lições das quais podemos tirar proveitosos ensinamentos para a realização interior. De todas as existências duradouras como a dela, fluí um manancial de alto valor se soubermos avaliar e respeitar as realizações, as angustias, o silêncio, as lutas, as renúncias e esforços vividos para a aquisição da felicidade. Benona é calma, meiga, educada, fala bem. Gostou de me receber e eu de entrevistá-la.
Helena Conserva – Vim conversar com você. Quero ouvir você falar da sua vida. Ah! temos uma foto de Inocêncio Oliveira nessa parede não é ?
Benona – Eu sou tia legítima de Inocêncio, sou irmã do pai dele e quando ele assumiu uns dias a presidência da República mandou esse retrato e coloquei aí, mas já ta ficando é velho. E nessa eleição ainda fui votar como sempre. Eu não tenho mais idade, mas fui votar porque pode ser que seja a última vez, pois agora só vivo com essa coluna a me matar. Todos meus irmãos estão no céu, só tem na terra eu e Maria de Lorena. Ela é mais nova do que eu dois anos. Meu nome é Benona Nunes de Oliveira, não tem Inácio não, mas a família toda tem Inácio. Minha mãe teve 20 filhos, 18 nasceram na fazenda somente eu e Maria de Lorena nascemos aqui, nessa casa, nessa travessa que tem o nome de meu pai. Eu nasci em 1923, e ela em 1925. Durante as questões do tempo de Lampião, todos vieram embora para Serra Talhada. Eu to contando a minha história para você saber como é. Minha vocação era para ser freira, mas minha mãe ficou viúva, com muitos filhos para criar e eu era muito ativa toda vida fui, tomei conta de tudo. Aí o padre do hospital disse o seguinte: olhe, a senhora fica sendo freira voluntária e consagrada, só não vai para o convento. Assim eu fiquei. Resolvia tudo da igreja e tudo no mundo eu fazia e sou feliz, mas agora to ruim da coluna. Eu levei uma queda na Igreja no altar de Nossa Senhora da Penha, arrumando o mês de maio de 1986. Fui levada para o Recife, o médico disse: olhe! É difícil essa operação, de cem escapa um, a senhora quer fazer? Quero. Eu disse. Eu confio em Deus seja o que ele quiser. E ele quis e eu estou aqui contando a história. Agora faço fisioterapia em casa duas vezes por semana, a fisioterapeuta Dra. Flávia muito boa. E assim vou levando a minha vida e sou muito feliz.
H.C. – Você disse que essa Travessa tem o nome de seu pai?
B. – O nome dessa travessa é Sebastião Inácio, nome do meu pai, mas o povo chama de “beco”. Antigamente chamavam “Beco da Tesoura”. Ficou assim conhecido porque à noite - nesse tempo não tinha energia, só chegou em 1930, então às mulheres se sentavam na calçada para conversarem uns com os outros e assim ficou conhecido como o “Beco da Tesoura”. Enquanto conversavam, a meninada como eu, brincava. Levei a minha vida aqui, correndo brincando de “caduca”. Essa rua que dá na Igreja, antes tinha muitos coqueiros. Seu Luiz de Sá e Luiz de Godoy, eles me contavam que antigamente começava a dança sete da noite e terminava cinco da manhã, mas os rapazes não bebiam não. Quando queriam beber um “golinho” de cachaça saiam para uma mercearia que tinha perto e depois mastigavam paus de canela para as moças não sentirem o hálito da bebida. Eles faziam serenata nas portas, cantando aquelas músicas lindas e tocando violão. Não existia essa Praça Agamenon Magalhães, nem essa outra, Sérgio Magalhães. Serra talhada era boa. Hoje não a conheço mais. Antigamente, quando eu trabalhava na educação, visitava todas as escolas do Bom Jesus a Bomba, mas agora se eu for até a AABB eu me perco. Essa Praçinha da Concha tem o nome de Agamenon Magalhães. Em 1952, no tempo que eu ensinava na Escola São Vicente, onde hoje é o colégio das freiras, (o Imaculada) Agamenon esteve lá. Ele era governador e foi no Colégio. Ele veio visitar a Fazenda Saco e conversar com os políticos e se entenderem bem, e foi tudo bem. Ele vinha pouco aqui, mas a família dele é daqui, são os Magalhães.
H.C. – Você só trabalhou na Igreja, Benona?
B. – Não. De jeito nenhum. Eu era muito ativa. Puxei a minha mãe que depois que meu pai morreu ela tomou conta das fazendas, vendia gado e tudo. E os filhos ela botou para trabalhar muito pequeno. Ela puxou aos Pereira, muito ativa, fazia queijo, moia e fazia farinhada. Tomou conta de tudo e as fazendas eram cada uma em um lugar diferente, em Santa Rita, no Boqueirão, nos Prazeres, em Belmonte. Ah! eu fui coordenadora do ensino municipal e diretora do Grupo Cornélio Soares. Porém, antes não tinha colégio em Serra Talhada, eu fiquei ensinando pelo município. No Cornélio Soares o diretor era Professor Laércio, do Estado e eu pelo Município. Fui diretora e coordenadora do ensino municipal, e assim viajava de carro pelas fazendas e escolas fiscalizando os municípios, mais naquele tempo a política era seria. Minha família era sempre da política de baixo de João Cleófas, a UDN. Eu, como professora não tinha direito a nada porque os políticos perseguiam. Mas foi no tempo que Lorena casou com minha irmã, ele sendo muito inteligente foi logo ser prefeito e quando viu as outras ganhando 250 mil reis e eu ganhando 80, aí ele disse: aqui tem um erro. Ele estudou e consertou o erro porque foi sempre muito justo e inteligente. Eu fiquei ganhando como as outras.
H.C. – Nosso muito obrigada a Benona por breves e elucidativas palavras. A posteridade deve marcar a sua passagem e a passagem das famílias Inácio e Pereiras (como outras) tão importantes para a aquisição da história municipal. Que os estudantes de nível superior se debrucem sobre a história municipal e produzam trabalho de TCC nesse âmbito. A posteridade agradecerá.


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